Separação e filhos pequenos

Atualmente o número de casais que se divorciam é bastante significativo. Pesquisas apontam que uma das fases de maior desentendimento e desequilíbrio na vida conjugal é a fase do nascimento dos filhos em virtude das mudanças como:  novas demandas, alteração na rotina,  sobrecarga devido aos cuidados, introdução de um novo membro na família,  distanciamento temporário do casal em virtude da atenção voltada para o filho, necessidade de novos acordos,  arranjos e papéis por parte dos pais, entre outras alterações. As pesquisas também apontam que  grande parte das separações se concentram no período da primeira infância dos filhos que acabam sendo a parte mais afetada, pois normalmente os desacordos entre o casal impedem o exercício de uma co parternidade positiva.

Entende-se por co parternidade positiva  a parceria dos pais na criação dos filhos, independente da situação conjugal.  Felizmente atualmente existe um movimento educacional,  social e jurídico bastante importante voltado às questões relacionadas ao cuidado no manejo com os filhos nos processos de separação. Este movimento é devido ao reconhecimento do impacto emocional e da influencia negativa na personalidade que uma  criança  pode sofrer em virtude de uma separação traumática da relação.

O impacto da separação conjugal sem dúvida é um trauma que   atinge toda a família, mas em especial os filhos, quando ainda são crianças. Apesar deste processo, ser uma situação de crise, caracterizada por perdas, mudanças e sofrimento, a criança tem mais chances de desenvolver um psiquismo saudável em um ambiente seguro, livre de tensões, discussões, desentendimentos e desavenças. É de extrema importância que os pais, mesmo separados, possam auxiliar seus filhos neste processo de separação tão ameaçador para uma criança. São diferentes e complicadas questões  pelas quais os filhos passam sem saber como lidar,  tais como:  saída de casa do pai ou da mãe, adaptações necessárias em virtude das mudanças ( residência, rotina, padrão de vida, etc ) e ainda a percepção em relação à luta dos pais contra sentimentos de culpa, tristeza, solidão, raiva, frustração, fracasso e ansiedade. Estas reações por parte dos pais dificultam a disponibilidade afetiva aos filhos,  impedindo ainda a existência de um ambiente estabilizador e continente. A criança acaba desenvolvendo sintomas semelhantes como alterações no humor, transtornos de ansiedade, desamparo, culpa, confusão, raiva, entre outros.

Sem dúvida é um processo que não é superado da noite para o dia, nem por nenhuma das partes, porém, através de alguns ajustes necessários e manejos é possível o enfrentamento para a superação progressiva, com menos prejuízos e danos. O processo inicial é o mais delicado e certamente exige mais da família ( pais e filhos ), mesmo quando parece ser algo impossível de ajuste e manejo. Por mais afetos negativos desencadeados por uma separação é possível sim que o casal consiga  manejar a situação preservando a co paternidade a favor dos filhos.  Em virtude da fragilidade emocional é comum o sofrimento por parte de  ambos os cônjuges . Geralmente aquele que fica com a guarda das crianças, sente-se sobrecarregado e com muitas responsabilidades para administrar e dar conta em um só momento. É importante que a rede de apoio possa ser ampliada, através da família, amigos e outras pessoas que possam ajudar no cuidado com os filhos. Para o cônjuge que sai de casa, as dificuldades podem  estar relacionadas a sentimentos de perda,  falta de continuidade, culpa, confusão, distanciamento dos filhos e nova moradia. No caso de filhos ainda bebês é importante atentar ao fato da necessidade da continuidade na relação, para que o vínculo possa ser permanecido e não rompido ou enfraquecido. O vínculo se desenvolve na medida em que o progenitor participa e compartilha da rotina diária e dos cuidados da criança.  Muitos homens consideram-se inadequados para o papel de cuidador, principalmente quando deixaram para  a mãe esta tarefa da criação dos filhos se distanciando do relacionamento.  O perigo desta fase corresponde à possibilidade do pai perder  o contato com os filhos e a mãe desenvolver uma relação de intenso apego com os mesmos, muitas vezes não permitindo ou dificultando o pouco contato com a figura paterna.

A terapia familiar, de casal ou até mesmo individual com a criança abrindo espaços para sessões com os pais é um recurso altamente positivo e eficaz. Sendo terapia de casal, o terapeuta auxilia os mesmos no processo de separação e  na redefinição do vínculo que deve ser transformado , possibilitando aos mesmos o reconhecimento de que um relacionamento de co paternidade beneficiará a eles e aos filhos. É importante ressaltar que os filhos sofrem, independente da idade e do estágio que se encontram. Quando maiores, ou seja,  na idade pré escolar, já são suficientemente crescidos para perceberem o que está acontecendo, porém, ainda inexiste a  adequada capacidade emocional para lidarem com o rompimento. São crianças que desenvolvem sentimentos de pesar, abandono, tristeza, saudade e culpa, porém ao mesmo tempo, conservam fantasias de reconciliação. Cabe salientar a importância dos ajustes e manejos estabilizadores, para que a criança possa se sentir amada e segura, portanto, ficam as seguintes dicas:

– Os pais devem conversar com seus filhos sobre a separação conjugal, procurando transparecer certa naturalidade, para que a situação não seja entendida pela criança como algo confuso, ameaçador e catastrófico;

– Visando uma melhor adaptação à situação é importante que os pais possam preparar seus filhos para todas as mudanças decorrente do processo;

– Possibilitar que os filhos possam de alguma forma manifestar suas emoções, reviverndo a situação através da fala ,  histórias,  desenho, jogos ou brincadeiras. Isso é importante para o processo de elaboração e aceitação.

– É importante que os filhos possam ter um plano bem definido de visitação e contato com o pai ou a mãe que saiu de casa. Esta definição estabiliza e organiza as fantasias da criança de abandono e desamparo, proporcionando condições favoráveis a percepção de que ainda é amada e protegida.

– É importante que os pais possam separar os sentimentos do casal e ter em mente que independente da fragilidade e da culpa, os limites e regras na educação dos filhos são essenciais para um ambiente organizador e seguro.

– Evitar situações de conflito e discórdia na frente das crianças. Discussões favorecem a desorganização emocional  contribuindo para que a criança seja ainda mais reativa perante a situação.

– A criança nunca deve ser colocada para dormir na cama junto com os pais. Trata-se de esta situação que pode gerar fantasias inconscientes por parte da criança de estar ocupando um lugar que não é seu, interferir no desenvolvimento da segurança afetiva e desencadear sintomas de ansiedade.

– A criança deve ser incentivada por parte da mãe conviver positivamente com o pai e vice versa. Muitas vezes o filho resiste no plano de visitação, porque identifica-se com comportamentos e sentimentos de um dos pais.

– Os pais não devem falar mal um do outro na frente do filho que sente-se muito confuso e triste perante estas situações. Por ser uma situação de crise, capaz de gerar comprometimento na disponibilidade afetiva por parte dos pais, muitas vezes os mesmos acabam compensando a relação com os filhos, através de presentes, permissividade e super proteção. Cabe salientar que nada compensa a presença afetiva , bem como um ambiente organizado com regras, limites e disciplina. Por mais difícil que seja, é importante o entendimento de  que a parte mais frágil ainda são os filhos, pois carecem da maturidade que os pais já adquiriram ao longo da vida para lidar com a tristeza, ansiedade e tantos outros sentimentos desencadeados em situações de crise.

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